Olá Meninas Super Poderosas...
Como estão todas vocês? Passando bem de tanto calorão? Eu ando derretendo por aqui, pena que não se derreta as banhas no calor....
Ontem tive alguns contratempos e não pude visitá-las, mas espero que hoje cumpra todas as minhas visitinhas, que faço sempre com um imenso prazer.
Resumindo, a Geórgia soube em dezembro último que está com câncer no fígado e no reto. Começou um tratamento bem agressivo, pois o caso era urgente e de grande complexidade e gravidade.
Julguei que ela teria alguma melhora com as várias sessões de quimio, já que a intervenção cirúrgica não foi possível, pois está em estágio avançado.
O que encontrei hoje foi algo devastador, de cortar qualquer coração, de ceifar a maior das esperanças...
Um moça com menos de 40 anos praticamente acamada, um palitinho de tão magra, com abdomen inchado, com as feições do rosto irreconhecíveis, impossibilitada de caminhar, sem nada poder fazer...
As esperanças e a fé que possui a ajudam muito, mas descobri que estão se esvaindo, que a minha queridinha risonha e guerreira está se entregando e se conformando.
O caso é tão terrível que o perito do INSS foi visitá-la para uma perícia médica e, em uma canetada, já acertou sua aposentadoria - uma licença, na verdade -, tamanha a gravidade do caso.
O tratamento é impiedoso, ainda mais para uma mulher que foi sempre tão vaidosa e tão cheia de vida.
Conversamos sobre tudo um pouco, de trivialidades a namoros e filhos. Apesar de tê-la visto assim tão mais fragilizada do que antes, fiz de tudo para que a tarde fosse agradável. Contei piadas, combinei de ir com ela à quimio depois do carnaval e de lhe ensinar decoupage para passar o tempo e as tardes insosas. Também fizemos planos de caminhadas leves, caso ela consiga se levantar...
Mas num determinado momento em que falávamos de sua filha Giullia, o olhar dela se fixou no meu por uns 40 segundos, sem nada me dizer... Os olhos dela se encheram de água e nenhuma palavra entre nós foi dita. Eu não desviei meus olhos dos seus por nenhum segundo, fiquei ali, lendo tudo, simplesmente entendendo tudo.
Apenas nos olhamos com afeto e eu soube, naquele momento, o tamanho da dor da minha amiga, o tamanho da dor que é ser mãe. Desviei de seus olhos e segurei sua mão magrinha e a beijei, como se ela pudesse entender com esse meu gesto que tudo ficará bem, mesmo sem nada estar.
E assim, sem palavras, nos entendemos. Eu, cabisbaixa e com sua mão em meus lábios, entendendo a dor dessa solitária mãe.
Depois de um tempo eu tive coragem de olhar novamente em seus olhinhos assustados de gazela e eu pude ouvir de sua boca, que antes era tão risonha: "amizade é isso, Sil... A gente se conhece tão bem que não preciso dizer a dor desse imenso vazio que se instalou em mim. Não preciso te falar, vc sabe né? Nós somos bem parecidas, deve ser por isso".
E ali, naquele momento, eu a abracei, senti seus ossinhos frágeis quase se quebrando, senti seu corpinho pequenino pedindo socorro, sua tristeza, passei as mãos por seus cabelinhos ralos, senti sua falta de ar que se instalou como companheira, ouvi um chorinho triste e abafado para que a filha de 14 anos, na outra sala, não ouvisse - o cuidado, sempre o cuidado da mãe...
O que fazer nessas horas? O que dizer? Como confortar essa mãe que se despede da vida tendo vivido tão pouco, com menos de 40 anos? O silêncio foi a minha resposta; apenas ali ao lado dela, segurando suas mãozinhas frias.
Sua única esperança, ela me disse, é que algo de novo na medicina surja. Mas como, em tão pouco tempo? A consciência dessa certeza a debilitou demais, faz com que esteja se entregando... Nada melhor que ignorar fatos médicos nessas horas.
Eu a vi tão triste, tão só em sua dor e tendo de ser tão forte para confortar a filha adolescente, a mãe idosa, a irmã dedicada.... Senti o peso de sua responsabilidade mesmo diante da partida iminente - porque acho que não há de ser de outro modo, mesmo torcendo para meu equívoco.
E eu, com todas as minhas certezas, saí de lá 3 horas depois com muitas lágrimas e tendo apenas uma certeza: a de como esse mundo pode ser injusto e cruel.
Rogo a quem quer que seja - a Deus, aos céus, aos santos, ao universo, ao Buda... - que a dor da minha amiga seja diminuta, que sua angústia emocional seja aplacada, que os médicos sejam piedosos e eficientes e que a sua fé não seja diminuída.
E, assim, com a história de um hiato no olhar entre duas amigas, contei a vocês como uma amizade pode ser poderosa, mesmo com a total ausência de palavras...
Geórgia:
Para você meu imenso amor e minha eterna amizade...
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Queridas:
Desejo a todas vocês um lindo final de semana...
Beijooooooooo


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