Hoje foi um daqueles dias saudosos, de sol ardido e atordoante, de pouco vento e vontade de se recolher em casa para nunca mais sair.
Fui ao cemitério visitar me pai, antecipando o tumuldo do Dia de Finados. Foi o segundo Dia de Finados visitando meu pai.
Ele está enterrado numa ala que antigamente era exclusiva para crianças, denominada "ala dos anjinhos", juntamente com minha irmã que não conheci. A quadra está repleta de crianças...
Eu e meu irmão compramos lindas flores, lavamos o túmulo, limpamos os matinhos em volta e ficamos naquele silêncio palpável, pesado. Porque certas coisas não precisam ser ditas, certas coisas não conseguimos sequer definir.
Fiquei um tempo sentada ali observando o gigantesco pé de flamboyant, que gentilmente dá um pouco de sombra ao meu pai, do outro lado o ipê que já está sem flores e o meu pai reinando entre os anjinhos. Pensei: ele que amava crianças, está no lugar certo...
Embaixo dos vasos de flores deixei meus costumeiros bilhetes para ele, como sempre fazia em vida: avisava dos remédios, deixava um beijo, falava uma bobeira, desenhava uma careta. Hoje os bilhetes são de saudade, de amor eterno por um pai exemplar, batalhador, guerreiro, carinhoso, presente, divertido, alegre, inteligente...
O porquê dos bilhetes? Não sei, apenas dei continuidade, não consegui parar de dizer o quanto ele é amado e certas atitudes não tem mesmo explicação.
Fomos embora em completo silêncio. Meu irmão cabisbaixo e visivelmente incomodado. Dei uma última olhada de longe e sorri pra ele, pois era assim que ele gostava de me ver.
E a dor? A dor não me abandonou, mas com o tempo estamos nos entendendo e ela tem aparecido em maiores espaços de tempo.
Procuro me lembrar dos bons momentos quando ele sorria descontraidamente, contava piadas, como na foto abaixo.
Abraçados ao fundo:
Meu irmão, eu e meu Papai
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Mas meu pai não gostava de tristeza, era muito alegre e vivaz. E com essa música abaixo é que gosto de me lembrar dele. Uma música que ele ouviu a primeira vez quando jovem, num filme da Jude Garland. Dizia que naqueles filmes de antigamente é que as músicas eram boas...rs
Um dos refrões diz: "Sonhos realmente se tornam realidade/Algum dia eu vou desejar por uma estrela/Acordar onde as nuvens estão muito atrás de mim/Onde problemas derretem como balas de limão..." (tradução aqui). E é lá que meu pai está...
A versão que apresento é incrivelmente bela, cantada por um havaiano chamado Israel Kamakawiwo'ole, mais conhecido como "IZ". Ele morreu muito jovem, em 1997 aos 37 anos, vítima de obesidade mórbida. Antes disso sofreu horrores de gravadores que se recusavam a gravá-lo por ser feio, gordo e por ser apenas um nativo. Mas ele deu a volta por cima, venceu o preconceito e se consagrou.
Vocês podem não conhecê-lo de nome, mas duvido que nunca ouviram sua voz! Já fez trilha sonora para vários filmes, como Encontro Marcado, Forrest Gump, entre outros. Ele toca um instrumento havaiano chamado ukelelê e não há nenhum artifício de estúdio entre a voz dele e o ukelelê: é talento puro!
No final do vídeo aparece a aglomeração de nativos havaianos acompanhando as cinzas de Iz, que foram lançadas ao mar... É emocionante.
E era assim que meu pai gostaria de ver todos da família: felizes!
É para todas vocês - e também para meu saudoso pai...

